Politics, Business & Culture in the Americas
Organized Crime

Uma ameaça que não pode ser combatida de forma isolada

O combate ao crime organizado requer cooperação entre todos os países do hemisfério.
Contrabando confiscado durante missão da força-tarefa conjunta no Caribe e no Pacífico Oriental.Andrew Langholf/Released/U.S. Navy

Este artigo foi adaptado da reportagem especial da AQ sobre o crime organizado transnacionalRead in English | Leer en español

Na vasta extensão do oceano Pacífico oriental, na região do istmo da América Central, uma solitária embarcação semissubmersível transita em direção ao oeste, carregada com várias toneladas de cocaína. Seu perfil discreto e parcialmente submerso é quase imperceptível ao olho humano. A missão da tripulação de quatro pessoas é levar a volumosa carga de cocaína o mais perto possível dos Estados Unidos, antes de entregá-la ao próximo elo da corrente do narcotráfico.

Aeronaves de patrulha marítima da Marinha americana e da Força Aérea colombiana identificam a localização da embarcação, rastreiam seus movimentos e compartilham as projeções de sua trajetória com autoridades de um país centro-americano próximo que se posicionaram para interceptar o carregamento. O país parceiro envia um interceptor marítimo para cercar o navio.

A tripulação do semissubmersível faz uma tentativa desesperada de escapar do interceptador que se aproxima, mas o esforço é em vão, e a equipe do interceptor avista a embarcação. Termina o jogo para os contrabandistas e é o fim do caminho para o carregamento de cocaína.

Esta história se baseia em intercepções semelhantes realizadas com sucesso durante operações de combate ao narcotráfico lideradas pelo Comando Sul das Forças Armadas dos EUA (SOUTHCOM), trabalhando em estreita colaboração com mais de 20 países e 16 interagências parceiras, uma iniciativa que resultou em um aumento de 65% no número de casos marítimos alvos da operação.

Na esteira da pandemia do COVID-19, as organizações criminosas transnacionais (OCTs) ajustaram suas táticas, técnicas e procedimentos. O uso de embarcações de pesca comercial e contêineres no transporte de cocaína diminuiu e elas passaram a empregar cada vez mais embarcações semissubmersíveis menores. O uso de rotas de trânsito do Caribe Ocidental também aumentou em resposta às restrições a viagens e transporte de carga. Cada país deve estar em máxima vigilância para conter essa ameaça.

As OCTs que operam nas Américas competem por estimados US$ 94 bilhões gerados anualmente pelo tráfico de cocaína em todo o mundo. Elas tiram proveito de todo tipo de tecnologia, oportunidade ou vulnerabilidade, chegando ao ponto de corromper governos, funcionários da Justiça e policiais para minar as instituições encarregadas da segurança pública. As OCTs não respeitam fronteiras ou a lei e operam com agilidade e inovação. Isso requer que o governo americano opere como uma entidade única ‑ utilizando várias agências ‑  e coopere além das fronteiras internacionais.

O combate às OCTs é um imperativo de segurança e defesa nacional e é fundamental para a defesa interior dos EUA. Iniciativas de cooperação para a segurança envolvendo todo o hemisfério e instituições de segurança fortes, que compartilham valores e garantem a segurança, a prosperidade e a liberdade são vitais.

O círculo vicioso de ameaças

As organizações criminosas transnacionais não poupam ideias ou táticas para contrabandear cocaína e outras drogas perigosas. Durante a Copa do Mundo de 2018, as autoridades argentinas apreenderam réplicas de troféus da Copa, cada uma contendo aproximadamente 1,5 quilo de cocaína. Em 2019, autoridades policiais espanholas interditaram um semissubmersível carregado com 3,5 toneladas de cocaína na costa noroeste da Península Ibérica. No início daquele ano, a mídia relatou a apreensão por autoridades policiais de Cabo Verde de 9,5 toneladas de cocaína a bordo de um navio russo que ia da América do Sul para o Marrocos.

Essas redes globais de tráfico de cocaína representam uma ameaça significativa à saúde das pessoas, ao meio ambiente e às economias do mundo. Entre as substâncias nocivas e produtos químicos usados ​​para fabricar cloridrato de cocaína estão amônia, metiletil cetona, ácido sulfúrico e gasolina. Os laboratórios de cocaína liberam de forma imprudente esses produtos químicos no meio ambiente. Os usuários de cocaína ingerem esses químicos, muitas vezes sem saber a extensão total das consequências para a saúde. Alguns traficantes misturam cocaína com fentanil, um analgésico opioide sintético semelhante à morfina, mas de 50 a 100 vezes mais potente. O resultado é uma droga mais barata, porém mais poderosa e potencialmente fatal. Também existem ameaças financeiras. Firmas abertas como empresas de fachada para a lavagem de fortunas criminosas minam empreendimentos comerciais legítimos. Redes chinesas de lavagem de dinheiro profissionais surgiram nos últimos anos como importantes prestadoras de serviços na região, capazes de movimentar rapidamente grandes quantidades de dinheiro das drogas através do comércio internacional.

Todas as vezes que extremistas criminosos e violentos se envolvem em atividades ilegais, eles minam o estado de direito e contribuem para uma espiral de instabilidade que, agravada pela violência e pelo COVID-19, eleva os níveis de corrupção, produz instituições enfraquecidas e estados frágeis, que prejudicam a sociedade e os sistemas jurídicos e  desencadeiam migrações. O resultado é um círculo vicioso de ameaças que colocam em risco a segurança das fronteiras que compartilhamos. Defendê-las requer uma abordagem governamental abrangente; bem como um esforço de cooperação entre países parceiros. O compartilhamento de inteligência e uma coordenação ampla são absolutamente essenciais.

O que começou em 1989 como uma força-tarefa militar conjunta dos EUA encarregada de apoiar operações antinarcóticos por forças policiais do Caribe, a Força-Tarefa Conjunta Interagências-Sul (JIATF-South, em inglês), um componente do SOUTHCOM, tornou-se desde então um modelo para a cooperação interinstitucional e internacional no combate ao tráfico de drogas.

Hoje, 16 agências federais dos EUA apoiam a missão da força-tarefa de monitorar, detectar, rastrear e relatar o tráfico ilícito de drogas por via aérea e marítima. Esses esforços apoiam e possibilitam o sucesso das forças policiais no combate ao narcotráfico em uma área operacional que abrange 68 milhões de quilômetros quadrados, que se estende do Pacífico Oriental ao Atlântico Ocidental e do mar ao norte das Antilhas caribenhas até as vias de navegação ao sul do território de Cabo Horn.

A Guarda Costeira dos EUA, a Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP, na sigla em inglês), A Agência de Combate às Drogas (DEA, na sigla em inglês), o Departamento de Estado dos EUA, a Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês) e o Departamento de Defesa dos EUA estão entre as muitas agências federais americanas que auxiliam países que buscam desmantelar as organizações criminosas transnacionais que operam dentro de seus territórios nacionais.

Essa cooperação é eficaz. De acordo com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, as Américas foram responsáveis ​​por 85% de toda a cocaína apreendida globalmente em 2018. E, apesar das demandas internas criadas pela COVID-19, nossos parceiros continuam comprometidos com a luta contra as drogas. Nos primeiros seis meses das operações antinarcóticos do SOUTHCOM, os países parceiros participaram de 60% das intervenções.

Do México ao Brasil, do Canadá ao Chile, nossos parceiros no Hemisfério Ocidental têm contribuído de várias maneiras para os resultados alcançados durante a operação antinarcóticos do SOUTHCOM e a operação antinarcóticos Orion V da Colômbia. De abril a novembro, esses esforços combinados interceptaram e apreenderam mais de 226 toneladas de cocaína, um prejuízo de quase US$ 6 bilhões para as redes de narcotráfico. Durante o mesmo período, as operações resultaram na detenção de pelo menos 520 suspeitos de tráfico e levam o crédito de ter salvado cerca de 2.300 vidas.

O aumento da participação das forças de segurança de países parceiros é possível graças ao investimento contínuo dos EUA por meio de autorizações do Departamento de Defesa (DOD, na sigla em inglês), como o Título 10, da Seção 333, que permite ao DOD treinar e equipar nossos parceiros com capacidades críticas para combater o tráfico ilícito e aumentar a segurança das fronteiras territoriais e marítimas. O envolvimento sustentado dos EUA reforça o aparato dos parceiros, desde uma melhora na capacidade das forças policiais de interceptar o narcotráfico em zonas ribeirinhas de produção da América do Sul, até o aumento da capacidade de países parceiros para operações de reconhecimento aéreo e para interdição marítima em toda a América Central e Caribe, criando assim uma rede densa para desmantelar organizações criminosas transnacionais.

E muitos desses países comprometidos com esse esforço de cooperação estão investindo cada vez mais na expansão ou modernização de suas capacidades antinarcóticos e contribuindo mais para as operações internacionais de combate às drogas.

A Jamaica e a Costa Rica compraram aviões de patrulha marítima, Trinidad e Tobago e Equador frustraram as tentativas de organizações criminosas transnacionais de contrabandear drogas em seus territórios ou próximo a eles. As forças navais de El Salvador estão patrulhando mais profundamente o Pacífico Oriental, enquanto as forças de segurança da Guatemala trabalham em conjunto com contrapartes dos EUA, Colômbia, México e outros países da América Central para interceptar o tráfico de cocaína via voos ilegais.

Todos esses esforços de combate ao narcotráfico por parte de países e agências governamentais apoiam um objetivo comum: defender a segurança das fronteiras que compartilhamos, detectando, degradando e desmantelando as organizações criminosas transnacionais. Para ter sucesso, precisamos continuar a desenvolver sólidas parcerias entre agências americanas e países parceiros, por meio do compartilhamento de informações, análise de dados, avaliações e operações sincronizadas de ataque às organizações criminosas. Só então seremos capazes de detectar, mapear e desmantelar as redes por trás de um negócio mundial de tráfico de drogas responsável por cerca de 450 mil mortes anualmente relacionadas ao uso de drogas, de acordo com a ONU.

As organizações criminosas transnacionais são inovadoras e altamente adaptáveis e usam uma rede global bem financiada. Sabemos que essas organizações continuarão tentando se mover sem serem detectadas através de fronteiras porosas, oceanos e vias aéreas ‑ mas elas terão que driblar a intercepção e apreensão coordenada por uma coalizão de países comprometidos com o combate às drogas, defendendo seus cidadãos do flagelo da corrupção, violência e morte que acompanham o comércio ilícito de drogas.

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O Contra-Almirante Tiongson é diretor de operações do Comando Sul das Forças Armadas dos EUA


Tags: organized crime
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