Este artigo foi adaptado da edição especial da AQ sobre a transformação demográfica da América Latina | Read in English | Leer en español

MONTEVIDÉU — Por mais de 25 anos, o Jardín Sonrisitas (Jardim da Infância Sorrisinhos) ensinou o alfabeto às crianças de Villa del Cerro, bairro operário na zona portuária da capital do Uruguai. Mas em dezembro, a venerada escola fechou suas portas, um dos três centros de educação infantil do bairro a encerrar atividades nos últimos três anos.
Hoje, as janelas do prédio estão lacradas e os brinquedos do parquinho empilhados num canto. A razão é simples, segundo Catalina Clara, 38 anos, cuja filha de seis anos foi uma das últimas quatro alunas do Jardim: “As pessoas não estão mais tendo muitos filhos.”
De fato, apenas cerca de 29 mil bebês nasceram no Uruguai no ano passado — um declínio acentuado em relação aos aproximadamente 49 mil bebês nascidos uma década atrás, e o menor índice desde o século 19. Os óbitos superam os nascimentos há seis anos consecutivos. À medida que o número de crianças em idade escolar diminui, outras 80 escolas particulares na Grande Montevidéu devem fechar até 2030. Mesmo nas que permanecem abertas, muitos percebem que uma nova era está se instalando. “Para nós, latinos, as grandes famílias têm uma conotação positiva”, diz Ignacio Cassi, diretor do prestigioso Colégio Seminário de Montevidéu, onde o número de matrículas caiu 10% em cinco anos. “É difícil não sentir uma certa nostalgia.”
O Uruguai não é o único país com esse dilema: a América Latina está vivendo os primeiros momentos de uma transformação demográfica histórica, destinada a remodelar a política, os negócios, as comunidades e os modos de vida da região durante décadas.
As estatísticas mal começam a capturar o impacto. Segundo dados da ONU, a taxa de fecundidade na América Latina é atualmente de 1,8 filhos por mulher — bem inferior à média de seis em 1950 e abaixo do nível de reposição de 2,1 filhos. Até 2100, se as tendências atuais persistirem, as populações do Chile e Uruguai devem encolher 33%, a do Brasil, 25%, e a da Argentina, 20%.
Desde 1950, a expectativa de vida da América Latina aumentou 27 anos…
…enquanto a taxa de fecundidade caiu de quase 6 para 1,8 por mulher…
…o que significa que a região envelhecerá rapidamente nas próximas décadas.
América do Norte, Europa e partes da Ásia já vivenciam tendências semelhantes desde os anos 2010. Mas na América Latina, o declínio se acelerou além de qualquer previsão, levando gestores públicos a uma batalha para calcular os impactos, acima de tudo, nos impostos, previdência e crescimento econômico futuro. Surpreendentemente, o Chile tem hoje uma taxa de natalidade inferior à do Japão. Censos recentes revelaram populações significativamente menores do que o previsto pelas autoridades no Brasil (203 milhões, em vez de 213 milhões) e no Chile (18,5 milhões, em vez de 20 milhões). O Censo paraguaio de 2022 registrou uma população de apenas 6,1 milhões de habitantes, em vez de 7,5 milhões — 20% menor do que o previsto. “Teremos basicamente que planejar um novo Paraguai”, comentou, perplexo, o ministro da Economia paraguaio ao ser questionado por jornalistas.
Como a expectativa de vida também vem crescendo enquanto as taxas de natalidade caem, a América Latina de hoje está envelhecendo mais rapidamente do que qualquer outra região do mundo. Em 1980, apenas 5% da população tinha mais de 65 anos. Esse índice dobrou desde então — e chegará a 25% em 2050. “Isso trará consequências enormes”, diz Luis Rosero-Bixby, demógrafo veterano e fundador do Centro Centroamericano de Población, da Universidade da Costa Rica. “Significará mudanças profundas em várias partes da sociedade.”
Vamos chamar esse fenômeno de Maré Cinza: uma virada política e econômica ainda maior em escopo e impacto do que a chamada Maré Rosa de governos de esquerda que transformou a região na virada do século 21. Enquanto a Maré Rosa dependia de condições externas passageiras — uma China em ascensão, preços de commodities nas alturas —, a pirâmide etária cada vez mais invertida do continente reflete tendências que parecem ter chegado para ficar.
Mas onde alguns veem crise, outros enxergam oportunidade. Empresas estão investindo em áreas de crescimento como turismo com acessibilidade, casas de repouso e robótica — parte do que economistas chamam de “silver economics”, ou “economia prateada ou grisalha”, prevista a mais que dobrar de tamanho na América Latina, chegando a cerca de US$ 650 bilhões até 2033. E muitas pessoas comuns não veem o encolhimento das famílias como um estado de emergência, mas sim o caminho para uma vida mais plena e sustentável.
De fato, se a região se preparar agora, poderá acolher seu envelhecimento dignamente, diz Cristina Querubín, consultora do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
“É um processo quase inevitável”, diz ela. “O verdadeiro desafio é como nos adaptaremos a essas mudanças e como nossas sociedades podem envelhecer com mais dignidade.”
A transformação demográfica “significará mudanças profundas em várias partes da sociedade.”
— Luis Rosero-Bixby, demógrafo veterano e fundador do Centro Centroamericano de Población da Universidade da Costa Rica
Os milhões que faltam
Seja qual for a perspectiva sobre essa tendência — positiva ou negativa —, todos concordam que é uma grande mudança para uma região que costumava orgulhar-se de ter muitos filhos — muitos mesmo.
Quando Gabriel García Márquez recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1982, ele estimou em seu discurso durante a cerimônia de entrega que a América Latina havia vivido cinco guerras, 17 golpes, 120 mil desaparecimentos forçados, registrado 200 mil vítimas de conflitos e repressão, 4 milhões de exilados e 20 milhões de mortes infantis nos 11 anos anteriores. “Apesar disso tudo”, disse o escritor colombiano à Academia Sueca, “à opressão, à pilhagem e ao abandono, respondemos com vida.”
De fato, a região passou por uma “explosão demográfica” no século 20, afirma Rosero-Bixby. Entre 1900 e 2000, a população do continente se multiplicou nove vezes — mais que o dobro da média de crescimento mundial —, de 60 milhões para 520 milhões de habitantes. Longe do Caribe sensual dos romances de García Márquez, a canção folclórica uruguaia Gurusito captura o otimismo obstinado dos pais à sombra da Guerra Fria: “E, ainda que nasça pobre, / eu o trarei também; / Precisa-se de crianças para o dia amanhecer.”
Por que a América Latina de hoje mudou tanto? Parte da resposta remonta a décadas. A curva descendente mais acentuada ocorreu entre 1960 e 1990, à medida que os latino-americanos migraram para as cidades e passaram a usar métodos contraceptivos. Campanhas de vacinação, melhorias no saneamento e uma melhora na nutrição também reduziram drasticamente a mortalidade infantil e aumentaram a expectativa de vida. Uma criança nascida na região em meados do século 20 dificilmente vivia além dos 50 anos; quem nasce hoje têm uma expectativa de viver até os 76.
O aumento do acesso de meninas ao ensino médio — hoje superior a 90% na América Latina — também ajudou as mulheres a postergar a maternidade e a ter famílias menores. Ediltrudis Noguera, ceramista da cidade paraguaia de Tobatí, viu a mãe batalhar para sustentar 15 filhos vendendo potes de cerâmica. Mais tarde, ela se casou e limitou a própria família a oito filhos. “Foi uma decisão minha”, diz Noguera, de 60 anos. “Meu marido teve que aceitar.”
As taxas de fecundidade atuais variam amplamente por país
Mas é o declínio cada vez mais acentuado nas taxas de natalidade desde os anos 2010, e uma aparente queda descontrolada desde a pandemia da Covid-19, que vem alarmando alguns gestores públicos e dividindo os cientistas sociais quanto às possíveis causas.
A quase triplicação das matrículas universitárias — de 23% da população em idade universitária em 2000 para 58% em 2023, à medida que países como Brasil, Peru, Argentina e Chile tornaram suas universidades mais acessíveis a estudantes das classes trabalhadoras — parece ter ampliado os horizontes de muitos jovens para além de uma vida dedicada à criação dos filhos. “Poderíamos até chamar isso de uma espécie de moda: querer famílias muito pequenas, ou não ter filhos”, diz Rosero-Bixby.
Alguns analistas observam que as taxas de natalidade despencaram mais ou menos na mesma época em que os smartphones inundaram a região, há mais de uma década. A América Latina tem algumas das maiores taxas de uso de redes sociais do mundo — os brasileiros, por exemplo, passam em média mais de três horas e meia por dia em plataformas como Instagram e WhatsApp. “Nossos filhos estão sendo criados por telas”, diz Alfonso Tolosa, pai de dois filhos de Colonia, no oeste do Uruguai. “Mas para formar uma família, é preciso sair e se socializar.”
Mudanças nas políticas públicas também tiveram um papel importante. Desde 2005, o Uruguai vem registrando um declínio de mais de 50% nas antes altíssimas taxas de gravidez na adolescência, ao ampliar a educação sexual, o acesso ao aborto e os serviços de planejamento familiar, incluindo implantes subdérmicos gratuitos para meninas em situação de vulnerabilidade e no pós-parto. “Vemos como positivo o fato de adolescentes poderem descobrir sua sexualidade sem gravidezes forçadas”, diz Tamara Abracinskas, da MYSU, uma ONG feminista. “Não é como se os uruguaios fossem desaparecer.”
Rodrigo Villaverde, professor de literatura de 31 anos, trabalhava no Colégio Los Vascos — escola de Montevidéu fundada em 1867 que fechou as portas em janeiro. Talvez ironicamente, o professor diz que ele e a namorada não planejam ter filhos — em parte para realizarem suas próprias ambições, em parte porque ele não gosta de crianças. E o cenário global, acrescenta, “não necessariamente nos convida à procriação.”

“Teríamos que basicamente ganhar na loteria para pensar no compromisso de longo prazo que é ter filhos. Será que vamos conseguir nos aposentar?”
— Nadia Gómez, de Assunção, Paraguai, fotografada com seu parceiro, Fernando Cañete
Sem filhos por escolha
A América Latina abriga versões especialmente acentuadas de diversas outras tendências que deprimem as taxas de natalidade em todo o mundo: o alto custo de vida, a insegurança do trabalho informal, as preocupações com as mudanças climáticas e a criminalidade.
Para Fernando Cañete e Nadia Gómez, a parentalidade parece uma perspectiva impossível e até assustadora. O casal, ambos com 34 anos, mora em um apartamento de dois cômodos com três gatos no centro de Assunção, capital do Paraguai. A renda deles — ela trabalha em comunicação, ele é arquiteto — cobre o aluguel, mas deixa pouca margem para poupar. “Teríamos que basicamente ganhar na loteria para pensar no compromisso de longo prazo que é ter filhos”, diz Gómez. “Será que vamos conseguir nos aposentar?”
As crianças não podem mais andar livremente pelas ruas, exigindo supervisão constante e atividades extracurriculares caras, acredita o casal. Para agravar a angústia: as temperaturas agora superam regularmente 40°C no verão, causando apagões frequentes. “Como poderíamos trazer uma criança ao mundo com tranquilidade quando já estamos sofrendo as consequências das mudanças climáticas?”, pergunta Gómez. Cañete admite sentir um certo fatalismo diante da revolução tecnológica e do capitalismo em geral: “Às vezes, desejo que a humanidade simplesmente se extinga.”
Para quem deseja continuar a espécie, parceiros confiáveis e carreiras estáveis podem ser difíceis de encontrar. A migração rural-urbana desmantelou a tradição latino-americana de lares multigeracionais, o que significa que os avós muitas vezes estão longe demais para servir de babás gratuitas. As mulheres latino-americanas realizam o dobro do trabalho doméstico e de cuidados não remunerados em comparação com os homens, tornando a parentalidade menos atraente para elas.
Os políticos têm tentado lidar com o problema, com resultados inconsistentes. O ex-presidente chileno Gabriel Boric — que, no ano passado, postou uma foto sorrindo com a filha de seis semanas, e a barba suja de leite regurgitado — foi elogiado por reduzir a semana de trabalho, ampliar as opções de home office para pais e mães e fortalecer o Sistema Nacional de Cuidados do Chile. Autodenominado feminista, ele também aprovou reformas que permitem ao Estado recuperar pensões alimentícias não pagas — diretamente das contas bancárias e pensões dos devedores — para ajudar mães solteiras.
Seu sucessor, José Antonio Kast, também classificou a queda das taxas de natalidade como uma prioridade “urgente” — e está determinado a adotar uma abordagem política diferente. Pai católico de nove filhos e opositor declarado ao aborto —, advertiu que “não haverá um Chile” a menos que mais bebês de pessoas não migrantes nasçam. Suas propostas incluem pagamentos únicos de US$ 2.000 para as mães.

Críticos afirmam que tais políticas não funcionarão sem melhorar as condições de vida. “Não é que as mulheres não queiram ter filhos”, diz Thiare Pérez, 34, organizadora comunitária e mãe de dois filhos de Lo Hermida, uma grande comunidade informal em Santiago. “O próprio sistema tornou a vida tão precária que criar filhos com dignidade está mais difícil do que nunca.” E ela critica a forma como a sociedade passou de demonizar as mães das classes trabalhadoras por terem filhos demais a repreendê-las por terem de menos.
As preocupações com a criminalidade também podem influenciar as decisões em uma região que responde por cerca de 30% dos homicídios mundiais, apesar de ter apenas 8% da população global. Aproximadamente um em cada cinco latino-americanos aponta a criminalidade como o problema mais importante enfrentado por seu país, com porcentagens mais altas em lugares como Equador, Chile e Uruguai.
Matías Morales, 28 anos, que ajuda a administrar a mercearia da família em Villa del Cerro, Montevidéu, compara sua vida sem filhos com a de seus avós, que chegaram como refugiados da Armênia e criaram seis filhos. Cada um em seguida foi constituir sua própria família. Mas o fechamento do último grande frigorífico empregador do bairro em 1989, seguido de crises econômicas e das consequências da Covid-19, abriu espaço para as gangues do tráfico. Morales foi assaltado à mão armada; o parceiro de sua mãe foi baleado.
“Os valores da sociedade são diferentes hoje… A narcocultura está se espalhando”, diz Morales. “Ninguém está mais pensando em ter filhos.”
“O principal desafio para a América Latina é que a região vai envelhecer antes de ficar rica.”
— Ernesto Revilla, economista-chefe para a América Latina do Citigroup
O aperto que vem por aí
Seja qual for o fator subjacente, não há como negar que a trajetória da América Latina em direção a uma idade mediana de 40 anos até 2050 — ante 18 em 1950 e 31 hoje — terá consequências de longo alcance para os mercados de trabalho, as economias e os sistemas de saúde e cuidados. A parcela da população em idade ativa atingirá o pico por volta de 2040 antes de declinar, levantando questões espinhosas sobre quem arcará com os custos dos aposentados. E, à medida que as taxas de dependência sobem, as aposentadorias já se tornaram um campo de batalha central na política latino-americana.
No Chile, anos de manifestações contra os parcos pagamentos das administradoras privadas de fundos de pensão tornaram-se a espinha dorsal do levante social de 2019, que sacudiu a política do país por mais de meia década. No ano anterior, na Nicarágua, protestos contra um corte proposto de 5% nas aposentadorias desencadearam uma repressão sangrenta pelo regime Ortega-Murillo que matou centenas de pessoas. A reforma previdenciária de Jair Bolsonaro em 2019 gerou uma greve geral em 189 cidades brasileiras. Na Argentina, enquanto a motosserra de Javier Milei reduz os direitos dos aposentados — tendo já cortado medicamentos gratuitos distribuidos pelo governo, nuvens de gás lacrimogêneo tornaram-se presença frequente nas ruas ao redor do Congresso em Buenos Aires.
As idades de aposentadoria permanecem notavelmente baixas em algumas profissões: 60 anos para funcionários públicos em Barbados, 58 para professores no Paraguai, cerca de 55 para parte dos policiais no Brasil. Trabalhadores da petrolífera estatal mexicana Pemex e militares da República Dominicana podem se aposentar já no início dos 50 anos, dependendo da quantidade de anos de contribuição. Mas as tentativas de elevar esses limites muitas vezes se convertem em medidas politicamente suicidas. Uma tática de protesto emotiva vem se espalhando: manifestantes empunhando e queimando caixões.
Para o terço dos idosos latino-americanos que não têm nenhuma aposentadoria ou renda —e aqueles cujos benefícios estão sendo corroídos pela inflação—, essas disputas parecem abstratas. Claudio Maraviglio, da Unión de Trabajadores Jubilados en Lucha, da Argentina, diz que o poder de compra dos aposentados vem desmoronando desde 2013. “Os aposentados estão em uma situação muito ruim”, diz Maraviglio, de 76 anos, professor de economia aposentado. “Há pessoas doentes, vivendo na rua e tirando a própria vida.”
O envelhecimento das sociedades também vai remodelar a indústria e os mercados de trabalho. Agricultura e saúde já enfrentam escassez de pessoal, e o trabalho na área de cuidado remunerado provavelmente será o próximo. Os cuidados de longa duração podem exigir gastos públicos próximos a 5% do PIB até 2035, especialmente à medida que menos mulheres se dispõem a assumir a prestação de cuidados não remunerados em casa.
Os empregadores podem recorrer a mão de obra externa: na Costa Rica, os nicaraguenses já representam 16% da força de trabalho. No entanto, sem esforços para integrar os migrantes — como a regularização em massa de 2 milhões de venezuelanos indocumentados realizada pela Colômbia em 2021 —, a contribuição deles para as redes de proteção social e para a renovação demográfica de longo prazo será limitada. Em última análise, diz Querubín, “os países precisarão de maior produtividade e de políticas que permitam às pessoas manter-se mais ativas por mais tempo”.
Uma realidade na qual um em cada quatro latino-americanos é idoso terá consequências importantes para as economias. Segundo um relatório recente do McKinsey Global Institute, o bônus demográfico acrescentou em média 0,5% de crescimento ao PIB per capita da América Latina e do Caribe a cada ano desde 1997. Mas nos próximos 25 anos, essa contribuição cairá a zero. O PIB per capita real do México, por exemplo, será US$ 2.600 menor em 2050 do que teria sido caso sua pirâmide etária tivesse permanecido estável. É uma enorme perda de prosperidade para uma região cujas economias têm se expandido apenas 1,5% ao ano desde 2015.
“O principal desafio para a América Latina é que a região vai envelhecer antes de ficar rica”, diz Ernesto Revilla, economista-chefe para a América Latina do Citigroup.
A inovação tecnológica — incluindo a inteligência artificial — poderia impulsionar a produtividade, permitir que os idosos trabalhem em tempo parcial em casa e compensar alguns desses obstáculos. Outras medidas de bem-estar e qualidade de vida podem, ao mesmo tempo, apresentar alguma melhora: pessoas com mais de 60 anos tendem a relatar níveis mais altos de felicidade. Mas, em termos brutos de PIB, é difícil amenizar o impacto negativo. “A combinação de crescimento baixo e maiores pressões fiscais definitivamente não é boa para a América Latina,” diz Revilla.
Aposentados radicais, bandidos grisalhos
O que o envelhecimento da América Latina significa para a política da região — famosa por oscilar como um pêndulo — é mais nebuloso. A experiência da Europa, da Ásia e da América do Norte sugere que as pessoas se tornam mais conservadoras com a idade. Se isso se confirmar, a recente guinada à direita da região pode se consolidar.
À medida que os recursos fiscais se tornam mais escassos, e com o comparecimento às urnas tipicamente maior entre eleitores mais velhos, pode-se até imaginar a ascensão de populistas da terceira idade: fechando escolas e cobrando mais impostos de trabalhadores jovens já sobrecarregados para financiar aposentadorias generosas e patrulhas de controle de ruído em bairros residenciais. “Podemos esperar que a política se torne mais populista”, diz Revilla. O crescente bloco de eleitores mais velhos “vai exigir que uma fatia maior dos recursos sejam destinados às suas preocupações, como a transferência de recursos da educação para a previdência, do futuro para o presente.”
Outros, porém, esperam menos mudanças. Tendo marchado na linha de frente das revoltas de protesto em Bogotá, Quito e Santiago, as gerações do Milênio e Z de hoje são “bastante progressistas”, diz a socióloga chilena Irma Arriagada. “Acho que elas vão manter esses valores.”
Coalizões intergeracionais surpreendentes podem emergir. Nas manifestações de 2019 no Chile, estudantes, ativistas indígenas e aposentados marcharam lado a lado. Quando aposentados que protestavam contra as medidas de austeridade de Milei foram reprimidos pela polícia no ano passado, torcidas organizadas do Boca Juniors e do River Plate entraram na briga, carregando faixas com uma citação de Diego Maradona: “Seria covarde não defender os aposentados.”
A ONAJPU, federação uruguaia de aposentados, marcha regularmente pedindo aumentos ao benefício básico da previdência estatal — de 20.500 pesos (cerca de US$ 510) por mês —, moradia social para idosos em situação de rua e redução nos preços de medicamentos. “Nossa luta é por uma aposentadoria digna”, diz a secretária-geral Estela Ovelar, uma aposentada de 70 anos com cabelos grisalhos. Embora o Uruguai tenha um dos sistemas de bem-estar social mais generosos da América Latina, ela diz que o país “pode fazer mais.”

“Nossa luta é por uma aposentadoria digna.”
— Estela Ovelar, secretária-geral da ONAJPU, federação de aposentados do Uruguai
O envelhecimento também pode redirecionar os debates de política pública de maneiras inusitadas. Pedro Bordaberry, senador conservador do Uruguai, defende um “choque imigratório” para compensar a queda nas taxas de natalidade. “O Uruguai é um país de imigrantes: somos filhos dos navios”, diz. Hoje, ele acha que seu país, notoriamente estável, tem uma nova “grande oportunidade” de atrair jovens profissionais de outras partes do mundo.
Outra incógnita é o que a Maré Cinza significará para o crime organizado endêmico na América Latina. Embora o senso comum sustente que a criminalidade diminui à medida que as sociedades envelhecem, o Uruguai e o Chile — dois países com as menores taxas de natalidade da região — viram suas taxas de homicídio aumentar nos últimos anos. A experiência sugere que outros tipos de crime podem simplesmente migrar para o ambiente digital — e a violência, para os bastidores.
Ovelar alerta para uma onda de golpes visando idosos, de ataques de phishing a deep fakes de políticos gerados por inteligência artificial. “A tecnologia avança em passos gigantescos, e grande parte de nossa sociedade está vulnerável a cibercriminosos”, diz Nicolás Centurión, pesquisador de crime organizado radicado no Uruguai. Defensores dos direitos dos idosos pedem a criação de unidades especializadas para investigar crimes contra idosos, especialmente em casas de repouso.
O lado positivo
Querubín, a consultora do BID, rejeita a “linguagem de crise” frequentemente usada ao se falar sobre o envelhecimento na América Latina. Poucos poderiam razoavelmente se opor ao fato de as pessoas viverem mais, ou de jovens — especialmente mulheres e meninas — desfrutarem de maior controle sobre suas vidas.
De fato, graças a uma melhoria na nutrição, nas condições de trabalho, nos tratamentos médicos e nos exercícios físicos, muitos dos aposentados latino-americanos de 2050 permanecerão ativos e saudáveis bem além dos 70 anos. A discussão, argumenta a consultora, deve se concentrar em como dar mais autonomia a esse crescente contingente de idosos — muitos dos quais querem continuar trabalhando, mas não encontram empregos adequados ou são impedidos por leis e atitudes sociais. “Isso poderia gerar oportunidades enormes”, diz Querubín.
As cidades também experimentam formas de conectar moradores idosos. Em uma tarde recente em Montevidéu, quase 200 idosos se reuniram no Parque de la Amistad para uma celebração cultural organizada pela Secretaria Municipal para a Terceira Idade. Os participantes encenaram trechos de uma peça de Federico García Lorca, cantaram milongas tradicionais e dançaram ou conversaram com amigos. “Nossa população pode ser velha, mas tem muito vida pela frente”, diz Nicolás Monzón, coordenador executivo da secretaria.

Empresas, organizações não-governamentais e governos também estão trabalhando para apoiar a permanência dos cidadãos no mercado de trabalho ativo por mais tempo. O Instituto Nacional de las Personas Adultas Mayores, no México, organiza feiras de emprego e programas de treinamento para ajudar pessoas com mais de 65 anos a permanecerem no mercado de trabalho e a migrarem para novos setores. A Pro Mujer, uma ONG, oferece serviços financeiros e treinamento para mulheres de 60 a 70 anos na Bolívia que desejam abrir microempresas. A Maturi, empresa sediada em São Paulo, busca conectar cerca de 200 mil usuários cadastrados com mais de 50 anos a empregadores, cuidando do alinhamento de perfis, seleção, entrevistas e ofertas de emprego. Um grupo de fundadoras de empresas com mais de 60 anos em toda a região — em áreas que vão desde destilarias de tequila exclusivamente femininas até programas de fidelidade de descontos gerados por fintechs — demonstra que a idade não é uma barreira para o empreendedorismo.
Na América Latina, o tamanho do mercado da economia prateada — abrangendo saúde, produtos financeiros, moradias assistidas e turismo acessível — deve expandir de US$ 280 bilhões em 2024 para US$ 650 bilhões até 2033. A ONU estima que apenas o setor de cuidados com idosos, uma atividade difícil de automatizar, pode gerar 31 milhões de empregos em toda a região até os anos 2030.
A AgeTech — indústria que produz itens como robótica assistiva (pense em membros biônicos) e biotecnologia voltada à longevidade — é uma área de crescimento especialmente efervescente. No México, a plataforma Koltin, apoiada por capital de risco, usa tecnologia para oferecer planos de saúde digital personalizados e atividades sociais para maiores de 50 anos, o que reduz a brecha de proteção social para esse grupo. A WideLabs, no Brasil, combina inteligência artificial com saúde cognitiva para ajudar pacientes com Alzheimer a recuperar recordações e reconstruir suas histórias de vida. O Háblalo, aplicativo gratuito off-line criado pelo argentino Mateo Salvatto, ajuda idosos com dificuldades de fala ou audição a se comunicar: hoje conta com meio milhão de usuários em 50 idiomas.
Outra empresa com sede no Uruguai é a Pills and Care, lançada em 2017 quando o engenheiro Rodrigo Arias enfrentava dificuldades para fazer a avó tomar seus remédios para pressão arterial. Estudos mostram que cerca de metade das pessoas não toma os medicamentos conforme prescrito. Sua solução: um dispensador de comprimidos que pode ser monitorado e controlado por aplicativo. A tecnologia, diz Arias, apoia — em vez de substituir — os entes queridos e cuidadores. “Precisamos ajudar as pessoas que vivem por mais tempo, e sozinhas, a viverem de forma mais independente”, diz.
Outra vantagem, segundo o demógrafo Rosero-Bixby, é o segundo dividendo demográfico: o potencial impulso econômico que pode ser desbloqueado investindo sabiamente as economias dos idosos. Os fundos de pensão privados do Chile destinaram mais de US$ 14 bilhões desde 2000 para rodovias, hospitais, portos, energia renovável e redes de transmissão. As administradoras de fundos de pensão do México, ou AFOREs, contam com cerca de US$ 438 bilhões em contribuições previdenciárias: o equivalente a 22% do PIB. Esses recursos estão sendo cada vez mais mobilizados para financiar oleodutos, projetos de habitação social, instalações turísticas e parques industriais próximos à região de origem da produção.
As taxas de natalidade também podem se recuperar ligeiramente no curto prazo, à medida que aqueles que adiaram os planos de ter filhos decidam dar o passo. Gómez e Cañete, o jovem casal paraguaio, não descartaram totalmente ter filhos. Ver estudantes do ensino médio marchando contra a corrupção a faz ponderar “como seria incrível criar um ser humano com esse tipo de liberdades e consciência que talvez nossos pais não tenham podido nos dar”. De vez em quando, concorda ele, “uma luzinha se acende”.

Mudando com os tempos
Alguns, no Uruguai, estão abraçando as mudanças e se adaptando a uma nova era mais grisalha. Em Rosario — uma cidade agrícola e acolhedora, a 130 quilômetros a oeste da capital —, o colégio Sagrado Corazón fechou as portas no fim de 2024, após 135 anos, com manchetes atribuindo o encerramento à falta de alunos pagantes. “Ficamos todos muito abalados”, diz Luciana Berger, cujos sogros, marido e filhos, assim como ela, estudaram na escola. “Não foi o único caso na região.”
Mas a comunidade se uniu. Uma associação de pais assumiu a gestão e recontratou os 20 funcionários da escola. Eles mesclaram cimento, consertaram fiações e arrecadaram fundos para o jardim de infância. Antonio Vizintín, sobrevivente do lendário acidente de avião nos Andes em 1972, concordou em ser padrinho dos 56 alunos. Carlos Mesa, ex-professor que leciona em uma faculdade de agronomia próxima, voltou para servir como diretor. Perguntado se está recebendo salário, ele ri: “Ainda não chegamos a falar nisso. Não é prioridade.”
“As contas têm que fechar”, diz Alejandro Dellature, gerente de um produtor local de queijos que integra o conselho com outros dois pais. Eles planejam organizar acampamentos de verão no antigo convento que faz parte da escola e cursos noturnos para adultos em inteligência artificial, agrotecnologia e inglês. Agentes de saúde locais redirecionaram a contribuição da previdência social de seus contracheques para financiar 15 bolsas de estudo. Para quem não pode pagar, as mensalidades são dispensadas.
Isso oferece uma visão de como poderão ser as comunidades latino-americanas no futuro: menores, mais participativas e mais intencionais, com pessoas de todas as idades unindo espaços, ideias e recursos. A mistura de empreendedorismo e serviço voluntário necessária para manter a escola viva para a próxima geração “é um desafio enorme”, admite Dellature, “mas alimenta a alma.”






